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SANGUE, A LEI E A VIDA
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A QUESTÃO
DO SANGUE - PARTE 2 ::298:: ...lei Mosaica são transponíveis para o cristianismo. Embora este ponto seja discutido mais adiante, pode-se dizer já que a exortação para se "abster do sangue" refere-se claramente a comer sangue. A Sentinela de 1.º de dezembro de 1978 (página 23), de fato, cita o Professor Eduard Meyer como tendo dito que o significado de "sangue" neste texto é "tomar sangue que era proibido pela lei (Gênesis 9:4) imposta a Noé, e, assim, também à humanidade como um todo." Esse "tomar" era por comer.[25] Uma questão crucial, portanto, é saber se pode ser demonstrado que transfundir sangue é o mesmo que "comer" sangue, como pretende a organização Torre de Vigia. Não existe, na realidade, nenhuma base sólida para essa pretensão. Existem, é claro, métodos clínicos de "alimentação intravenosa" na qual líquidos especialmente preparados contendo nutriente, como a glucose, são introduzidos nas veias e fornecem alimentação. Contudo, como as autoridades médicas sabem, e como a Sociedade Torre de Vigia em tempos reconheceu, uma transfusão de sangue não é alimentação intravenosa; é na realidade um transplante (de um tecido fluido), e não uma infusão de nutriente.[26] Num transplante de rim, o rim não é comido como alimento pelo novo corpo a que passa a pertencer. Continua a ser um rim com a mesma forma e a mesma função. Passa-se o mesmo com o sangue. Não é comido como alimento quando é "transplantado" para outro corpo. Continua a ser o mesmo tecido fluido, com a mesma forma e a mesma função. As células do corpo não podem de maneira nenhuma utilizar esse sangue transplantado como alimento. Para que isto acontecesse o sangue teria de passar primeiro pelo sistema digestivo, ser decomposto e preparado de forma que as células do corpo o pudessem absorver -- assim teria de ser real e literalmente comido para que pudesse servir como alimento.[27] Quando os profissionais médicos acham que é necessária uma transfusão de sangue não é porque o paciente esteja subnutrido. Na maioria dos casos é porque o paciente tem falta, não de nutrição, mas de oxigênio, e isto deve-se à falta de elementos que transportem um suprimento adequado ::299:: de oxigênio, nomeadamente, os glóbulos vermelhos do sangue, que transportam o oxigênio. Em outros casos, é administrado sangue devido à falta de outros fatores, como agentes coagulantes (como as plaquetas), imunoglobina contendo anticorpos, ou outros elementos, mas novamente este não é um meio de fornecer "nutrição." No seu esforço para contornar a evidência de que uma transfusão de sangue não é o mesmo que comer, não tem como objetivo a "nutrição" do corpo, a Sociedade Torre de Vigia tenta muitas vezes alargar arbitrariamente o assunto ao pôr lado a lado, ou até substituir, o termo "nutrir" com a expressão "sustentar a vida."[28] Esta manobra de diversão serve o único propósito de confundir o assunto. Nutrir o corpo por comer e sustentar a vida não são coisas equivalentes. Comer é apenas uma das maneiras de sustentar a vida. Nós sustentamos a vida de muitas outras maneiras, igualmente vitais, como respirar, beber água e outros líquidos, manter o calor do corpo numa temperatura suportável, e dormir ou descansar. Quando se referem ao sangue, as próprias Escrituras tratam, não do aspecto amplo de "sustentar a vida," mas do aspecto específico de comer sangue, e referem-se claramente ao ato de comer o sangue de animais que são mortos. Quando um israelita comia carne que continha sangue, ele não estava a depender desse sangue para "sustentar" a sua vida -- a carne só por si faria isso tão bem sem o sangue como com o sangue. Saber se a sua vida era ou não "sustentada" por comer o sangue simplesmente não estava em questão. O ato de comer o sangue era proibido, e a motivação ou conseqüências posteriores de o comer não foram mencionadas nas leis do sangue. A confusão introduzida no assunto pela inserção desnecessária do conceito de "sustentar a vida" permite que a organização Torre de Vigia imponha aos seus membros a idéia segundo a qual qualquer pessoa que aceite uma transfusão de sangue mostra desprezo pelo resgate que nos dá vida realizado pelo poder salvador do sangue de Cristo derramado em sacrifício. A duplicidade desta linha de raciocínio é vista no fato de as frações do sangue que a organização Torre de Vigia permite que os seus membros recebam, serem administradas precisamente para salvar ou "sustentar" a vida da pessoa, como no caso do Fator VIII, administrado aos hemofílicos, ou como no caso da imunoglobina, injetada como proteção contra certas doenças perigosas ou para prevenir a morte de uma criança devido a incompatibilidade de Rh.[29] É injusto e revela falta de amor condenar a ::300:: motivação daqueles que procuram preservar a sua vida, ou a vida de entes queridos, porque não obedecem a certos regulamentos e proibições inventados por uma organização religiosa, condenação essa que é feita quando atribuem uma negação da fé à sua motivação, quando na realidade não existe nenhuma base válida, das Escrituras ou outra, para o fazer. É uma tentativa de os sobrecarregar com um sentimento de culpa que é imposto por padrões que são humanos, não são divinos. 'Abstende-vos de Sangue' A carta enviada pelos apóstolos e anciãos de Jerusalém, registada em Atos capítulo quinze, usa o termo "abster-se" em relação a coisas sacrificadas a ídolos, sangue, coisas estranguladas e fornicação.[30] O termo grego que eles usaram (apékhomai) tem o significado básico "ficar afastado de." As publicações da Torre de Vigia argumentam que, com respeito ao sangue, tem um significado total, que abrange tudo. Assim, a publicação Poderá Viver Para Sempre no Paraíso na Terra, na página 216, diz: " 'Abster-se do sangue' significa definitivamente não introduzi-lo em seu corpo." De maneira similar, a Sentinela de 1.º de maio de 1988, página 17, diz: "Andar nas pisadas de Jesus significaria não introduzir sangue no corpo, seja oralmente, seja de outro modo." Mas será que este termo, como é usado nas Escrituras, tem realmente o sentido absoluto que estas publicações indicam? Ou pode em vez disso ter um sentido relativo, referente a uma aplicação específica e limitada? Que esse termo se pode aplicar, não num sentido total, que abrange tudo, mas de maneira limitada, específica, pode ser visto do seu uso em textos como 1 Timóteo 4:3. Ali o apóstolo Paulo avisa que alguns professos cristãos introduziriam ensinos de natureza perniciosa, "proibindo o casar-se, mandando abster-se de alimentos que Deus criou para serem tomados com agradecimentos." Claramente, ele não queria dizer que estas pessoas ordenariam a outros que se abstivessem totalmente, sob qualquer forma, de todos os alimentos criados por Deus. Isso significaria jejum total e conduziria à morte. Ele estava obviamente a referir-se a proibirem eles alimentos específicos, evidentemente aqueles proibidos sob a lei Mosaica. De forma similar, em 1 Pedro 2:11 o apóstolo admoesta: Amados, exorto-vos como a forasteiros e residentes temporários a que vos abstenhais dos desejos carnais, que são os que travam um combate contra a alma. Se tomássemos esta expressão literalmente, num sentido absoluto, significaria que não podíamos satisfazer absolutamente nenhum desejo da carne. Certamente não é esse o significado das palavras do apóstolo. Temos muitos "desejos carnais," incluindo ::301:: o desejo de comer, de respirar, de dormir, de usufruir recreação e muitos outros desejos, que são perfeitamente apropriados e bons. Portanto, "abster-se de desejos carnais" aplicava-se apenas no contexto do que o apóstolo escreveu, referindo-se, não a todos os desejos carnais, mas apenas a desejos prejudiciais, pecaminosos que de fato "travam um combate contra a alma." Portanto a questão é, em que contexto Tiago e o concílio apostólico usaram a expressão "abster-se" do sangue? O próprio concílio tratava especificamente da tentativa de alguns de exigir que os cristãos gentios não apenas fossem circuncidados mas também "observassem a lei de Moisés."[31] Era a essa circunstância que o apóstolo Pedro se referia, a observância da lei Mosaica, que ele descreveu como um "jugo" pesado.[32] Quando Tiago falou perante o concílio e fez a sua recomendação das coisas acerca das quais os cristãos gentios deviam ser aconselhados a abster-se-coisas poluídas por ídolos, fornicação, coisas estranguladas, e sangue-ele depois declarou: Pois, desde os tempos antigos, Moisés tem tido em cidade após cidade os que o pregam, porque ele está sendo lido em voz alta nas sinagogas, cada sábado.[33] Por isso, a recomendação dele tomou evidentemente em consideração o que as pessoas ouviam quando 'Moisés era lido' nas sinagogas. Tiago sabia que nos tempos antigos havia gentios, "pessoas das nações," que viviam na terra de Israel, residindo entre a comunidade judaica. Que requisitos lhes foram impostos pela lei Mosaica? Não lhes era requerido que fossem circuncidados, mas sim que se abstivessem de certas práticas que são descritas no livro de Levítico, capítulos 17 e 18. Essa lei especificava que, não apenas os israelitas, mas também os "residentes forasteiros" entre eles deviam abster-se da participação em sacrifícios idólatras (Levítico 17:7-9), de comer sangue, incluindo o de animais mortos não sangrados (Levítico 17:10-16), e de práticas designadas como sexualmente imorais (incluindo o incesto e práticas homossexuais). -- Levítico 18:6-26. Embora a própria terra de Israel estivesse agora sob controlo gentio, com um grande número de judeus a viver fora dela, em vários países (estes eram chamados a "Diáspora," que significa os "dispersos"), Tiago sabia que em muitas cidades por todo o Império Romano a comunidade judaica era como um microcosmo refletindo a situação da Palestina daquele tempo, na qual era muito comum os gentios juntarem-se às reuniões dos judeus na sinagoga, e assim associarem-se com eles.[34] ::302:: Os próprios cristãos primitivos, tanto judeus como gentios, continuaram a freqüentar estas reuniões na sinagoga, e até sabemos que Paulo e outros fizeram ali muito do seu testemunho e ensino.[35] A referência de Tiago à leitura de Moisés na sinagoga numa cidade após outra certamente dá base para acreditar que, ao enumerar as coisas que mencionou imediatamente antes, ele tinha em mente as abstinências que Moisés estabelecera para os gentios que pertenciam à comunidade judaica em tempos antigos. Conforme vimos, Tiago enumerou não apenas exatamente as mesmas coisas que estão no livro de Levítico, mas até exatamente pela mesma ordem: abstenção de sacrifícios idólatras, sangue, coisas estranguladas (portanto não sangradas), e de imoralidade sexual. Ele recomendou a observância dessas mesmas coisas da parte dos crentes gentios e a razão evidente para esta abstenção era a circunstância então prevalecente, a presença de judeus e gentios nas reuniões cristãs e a necessidade de manter paz e harmonia nessa circunstância. Quando os cristãos gentios foram instados a 'absterem-se de sangue,' isto devia claramente ser entendido, não num sentido que abrangesse tudo, mas no sentido específico de comer sangue, algo abominável para os judeus. Levar o assunto mais longe do que isso, e tentar atribuir ao sangue em si mesmo uma espécie de estatuto de "tabu," é tirar o assunto do seu contexto nas Escrituras e histórico e impor-lhe um significado que realmente não está lá.[36] Significativamente, Tiago não incluiu coisas como o assassínio ou o roubo entre as ações de que se deviam abster. Essas coisas já eram condenadas tanto entre os gentios em geral como entre os judeus. Mas os gentios toleravam a idolatria, toleravam comer sangue e comer animais não sangrados e toleravam a imoralidade sexual, tendo até "prostitutas de templo" em lugares de adoração. Portanto, as abstenções recomendadas focavam aqueles aspectos da prática dos gentios que eram mais propensos a ofender grandemente os judeus e resultar em fricção e perturbações.[37] A lei Mosaica não tinha exigido a circuncisão dos residentes forasteiros como condição para viver em paz em Israel, nem Tiago exigiu isto. ::303:: A carta que resultou da recomendação de Tiago foi dirigida especificamente aos cristãos gentios, pessoas "das nações," em Antioquia, Síria e Sicília (regiões que eram adjacentes a Israel, a norte) e, como vimos, tratava do assunto específico de uma tentativa de exigir que os crentes gentios "observassem a lei de Moisés."[38] A carta considerava aquele tipo de conduta mais propensa a criar dificuldades entre os crentes judeus e gentios. Como será demonstrado mais adiante, não existe nada que indique que a carta se destinava a ser vista como uma espécie de "lei," como se as quatro abstenções impostas formassem um "Quadrálogo" substituindo o "Decálogo" dos Dez Mandamentos da lei Mosaica. Aquele era conselho específico para uma circunstância específica prevalecente naquele período da história. Regras Preferenciais Enquanto estive no Corpo Governante, não pude deixar de sentir que existe uma certa medida de aplicação discriminatória da política da organização, que favorece aqueles numa posição de profissionais. Os professores podem explicar o assunto da evolução, fazendo isto de um "ponto de vista puramente objetivo" e de preferência explicando previamente à turma que têm uma opinião diferente.[39] Conforme vimos, os advogados são autorizados a servir em centros de eleições políticas [mesas de voto]. Talvez o fato mais espantoso, contudo, seja que os médicos possam não só pertencer a organizações médicas que aprovam práticas como transfusões de sangue e abortos, mas também lhes é dito que eles próprios podem administrar uma transfusão de sangue a um paciente que não é Testemunha e que lha peça.[40] O raciocínio que pretende justificar isto é baseado na lei Mosaica que permitia aos israelitas vender a estrangeiros carne de animais que tinham morrido sem serem sangrados.[41] No entanto, o sangue daqueles animais ainda estava nos seus corpos, onde sempre tinha estado, não fora extraído nem armazenado -- um processo que a organização condena como mostrando desprezo pela lei de Deus.[42] Todos os apelos intensos para mostrar "profundo respeito ::304:: pela santidade do sangue," todos os avisos acerca da culpa de sangue inerente a qualquer mau uso do sangue, toda a argumentação condenando qualquer armazenamento de sangue por mostrar desprezo pelas leis de Deus, subitamente perdem a sua força quando esses cirurgiões que são Testemunhas estão envolvidos.[43] Com toda a sinceridade, e sem qualquer intenção de ofender alguém, quando analiso as várias ordens, regras, políticas e tecnicismos da organização que foram considerados, não posso senão pensar que se um indivíduo usasse nos assuntos mais "corriqueiros" da vida diária o tipo de raciocínio refletido naquelas posições e regras, as pessoas sentir-se-iam compelidas a questionar a sanidade mental desse indivíduo. Porque é que as Pessoas Aceitam Isto? No seu tempo, o apóstolo Paulo falou daqueles que "querem estar debaixo de lei." (Gálatas 4:21) Muitos hoje também querem. Contrariamente aos judaizantes do tempo de Paulo, os homens hoje talvez não advoguem a submissão à lei Mosaica, mas ao fazerem uma interpretação legalista do cristianismo eles convertem-no num código de leis, num conjunto de regras. Eles criam uma espécie de escravidão a regras, a políticas tradicionais, e são estas que governam o relacionamento das pessoas com Deus. Mas porque é que as pessoas se submetem a tais imposições? O que é que faz as pessoas renunciarem à sua preciosa liberdade de exercerem o seu próprio julgamento moral, mesmo nos aspectos mais privados das suas vidas? O que é que os leva a submeterem-se às interpretações e regras de homens imperfeitos, mesmo com o risco de perderem o emprego, serem presas, colocar o casamento sob grande tensão, até mesmo arriscar a vida, seja a própria seja a de alguém que amam? Estão envolvidos vários fatores. Podem existir pressões sociais e familiares, sendo o conformismo o meio de evitar desacordos e até conflitos. Pode existir um medo muito grande, um medo paralisante, da rejeição divina e eventual destruição se uma pessoa se aventurar fora da "arca" organizacional. Mas existe outra razão que é talvez mais básica, e que está muitas vezes na própria raiz do problema. A maioria das pessoas gosta de ver as coisas a preto e branco, gosta de ter os assuntos catalogados muito distintamente como certos ou errados. Fazer decisões baseadas na nossa própria consciência pode ser difícil, por vezes agonizante. Muitos preferem não fazer esse esforço, preferem simplesmente deixar que alguém lhes diga como proceder, preferem que alguém seja a sua consciência por eles. Foi isto que permitiu o desenvolvimento do controlo rabínico e ::305:: de um conjunto de tradições rabínicas nos dias de Jesus. Em vez de decidir um assunto com base na Palavra de Deus e na consciência pessoal, o que se fazia era "perguntar ao Rabi." Entre as Testemunhas de Jeová isto tornou-se inquestionavelmente, "Pergunte à organização," ou simplesmente "pergunte a Brooklyn." Outra razão é a subtileza com que tais racionalizações e interpretações legais são apresentadas e impostas. A ênfase religiosa na lei, o legalismo, tem sido constantemente marcada pelo uso de tecnicismos e sofística, raciocínios que não são apenas subtis mas também plausíveis, por vezes até engenhosos-e no entanto, falsos. Desmontar esses raciocínios e reconhecê-los pelo que realmente são requer esforço, um esforço que muitos não estão dispostos a fazer e que outros simplesmente parecem incapazes de realizar. Considere apenas dois exemplos de antigas fontes rabínicas. Em tempos antigos, os "professores da lei" tentaram tornar a ordem de Êxodo 16:29 ("Ninguém saia do seu lugar no sétimo dia") mais explícita. Eles estabeleceram a regra de no Sábado um homem só poder caminhar uma certa distância (um pouco menos de 3.000 pés) a partir do limite exterior da sua cidade ou vila. Esta distância era chamada a "jornada de um Sábado" (uma expressão em uso no tempo de Jesus; veja Atos 1:12). No entanto, havia uma maneira de um homem fazer uma viagem mais longa do que essa e, do ponto de vista rabínico, ainda estar "legal." Como? Ele podia, com efeito, "criar" um segundo domicílio nalgum lar ou local fora da sua localidade (mas ainda dentro do limite de 3.000 pés) depositando simplesmente nesse sítio no dia anterior ao sábado mantimentos para pelo menos duas refeições. Depois, no Sábado, ele podia viajar para esse segundo "domicílio" e em seguida deixá-lo e prolongar a sua viagem mais 3.000 pés. A declaração em Jeremias 17:22, que proíbe tirar qualquer "carga dos vossos lares no dia de Sábado," foi ampliada de maneira similar. Os professores da lei raciocinaram que não haveria nenhuma proibição contra carregar coisas de uma parte de uma casa para outra parte, mesmo se a casa fosse ocupada por mais do que uma família. Portanto, eles inventaram a regra segundo a qual pessoas vivendo em casas dentro de um certo setor (como aquelas vivendo em casas construídas à volta de um pátio comum), podiam construir uma passagem "legal" para a seção inteira erigindo umbrais de porta na entrada da rua para a seção, talvez com uma trave por cima a fazer de verga de porta. Agora, a seção inteira era vista como se fosse um domicílio e as coisas podiam ser carregadas de uma casa para outra dentro da área, sem violar a lei.[44] Compare agora esse método de raciocínio e uso de tecnicismos com o método que a Sociedade Torre de Vigia emprega ao aplicar as suas ::306:: regras relativas a certos aspectos da prática médica. A Sentinela de 1.º de Março 1989, na seção "Perguntas dos Leitores," discute o método de retirar sangue de um paciente algum tempo antes de uma operação e armazená-lo para voltar a ser usado durante ou depois da operação. A revista declara categoricamente que as Testemunhas de Jeová "Não aceitam este procedimento," A razão? O sangue "deixou de ser parte da pessoa." é citado o texto de Deuteronômio 12:24, que diz que o sangue de um animal que foi morto tem de ser derramado no chão. Por algum raciocínio, esta lei a respeito da matança de animais é vista como se apresentasse uma situação paralela ao caso do armazenamento do sangue de uma pessoa vida, da maneira que acabamos de descrever. Mas a seguir o artigo discute outro método, no qual, durante a operação, o sangue do paciente é introduzido numa bomba cárdio-pulmonar ou numa máquina de hemodiálise (dispositivo de rim artificial) para receber oxigênio ou ser filtrado antes de voltar a ser introduzido no corpo do paciente. O artigo informa os seus leitores que, contrariamente ao outro método, este pode ser encarado como aceitável por um cristão. Porquê? Porque o cristão pode vê-lo "como um prolongamento do seu sistema circulatório de tal forma que o sangue possa passar através de um órgão artificial," e portanto pode achar que "o sangue neste circuito fechado é ainda parte deles e não precisa de ser 'derramado.' " Que diferença existe entre este "prolongamento" do sistema circulatório e o legalismo rabínico que permitia o "prolongamento" da jornada de um dia de Sábado por uma certa distância através do tecnicismo de um segundo domicílio artificial? Ou em que medida é esta classificação do sangue como estando tecnicamente num "circuito fechado" diferente do legalismo antigo de fazer um "circuito fechado" de um certo número de casas através de uma passagem artificial? O mesmo tipo de raciocínio casuístico e uso legalista de tecnicismos é empregue em ambos os casos, antigo e moderno. Nos seus próprios corações muitas Testemunhas talvez achem que o primeiro método, aquele em que a pessoa armazena o seu próprio sangue, não é na realidade mais contrário às Escrituras do que o segundo método, fazer o sangue circular através de uma máquina de respiração artificial. No entanto, eles não estão livres de seguir a sua própria consciência. A vida de um indivíduo pode estar em jogo, mas os raciocínios interpretativos e os tecnicismos da Torre de Vigia têm de ser observados, pois são parte do "grande corpo de lei Teocrática." Não obedecer seria correr o risco de ser desassociado. A Fraqueza da Lei e o Poder do Amor A lei produz muitas vezes uma conformidade exterior que disfarça o que as pessoas são no seu íntimo. Nos dias de Jesus, a lei permitiu aos líderes religiosos, por 'viverem segundo as regras' de maneira escrupulosa, "parecerem às pessoas, exteriormente, ::307::
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